3º Domingo do Tempo Comum

pe-geraldoNeste domingo seguimos Jesus nos primeiros passos de sua vida pública e de sua pregação. Revivemos os grandes anúncios que ele havia feito ao mundo e aprendemos a reconhecer neles o cumprimento das promessas de Deus aos homens. Em Jesus de Nazaré se realiza o cumprimento das promessas messiânicas:

é este o tema de fundo que caracteriza estes primeiros domingos do tempo definido como comum, que caem entre a Epifania e a Quaresma.

Domingo passado acolhemos o anúncio consolador de remissão dos pecados: Jesus é o Cordeiro de Deus que tira nossos pecados. Nele, Deus realiza o que tinha prometido com o símbolo do cordeiro pascal e com a profecia do cordeiro “transpassado pelos nossos pecados”.

Agora podemos acolher o grande anúncio da luz e da alegria. Jesus, vindo ao mundo, além do perdão dos pecados, trouxe aos homens “uma grande luz” e uma grande alegria. Realizou-se, assim, outra promessa de Deus. Tudo isso nos é dito com o mesmo procedimento de domingo passado: fazendo-nos ler dois tópicos da Escritura, um do antigo Testamento, que contém a promessa, e outro do Evangelho, que contém a realização. Na primeira leitura, Isaías fala aos galileus deportados pela Assíria, no ano de 732 a.C. este povo caminha encurvado, acorrentado e abatido para o exílio; caminha na escuridão noturna. A ele o profeta anuncia uma luz inesperada: o fim da escravidão, o retorno à sua pátria exultando de alegria.

Nisso está contida uma promessa para todo o gênero humano que geme sob o domínio da experiência do mal e da escravidão. Para esta humanidade perdida, curvada sob o peso das próprias experiências, escrava de patrões que colocaram amarras a seus pés e correntes em sua alma, esmagada pelo terror do além, “lá onde a alegria é algo ignorado”, como afirma Ésquilo, autor trágico grego, um dia virá uma grande luz e ela voltará a conhecer a alegria: “O povo que caminhava nas trevas viu uma grande luz [...] multiplicaste a alegria, fizeste crescer a felicidade. Alegram –se diante de ti, como a gente se alegra quando ceifa e exulta quando dividem os despojos”.

Pouco depois do Batismo, Jesus vai para Cafarnaum, na Galiléia dos pagãos, exatamente na região onde um dia viu as multidões de hebreus se encaminharem para o exílio. A presença de Jesus neste lugar aparece ao evangelista somo o “sim” de Deus à promessa antiga; ele recorda, por isso, o texto da profecia de Isaías: Para que se cumprisse o que fora dito por meio do profeta Isaías.

Jesus é a grande luz que despontou para a humanidade: Eu sou a luz do mundo. O que significa a luz? Significa o caminho, a verdade e, sobretudo a vida. Ele é o caminho e a verdade: isto é, a segurança do caminho a ser percorrido, o companheiro e viagem, a possibilidade de acesso a Deus: ninguém vem ao Pai senão por mim (Jo 14,6). É, porém, também a vida, isto é, o termo e a meta daquele caminho, a recompensa e a finalidade da viagem da existência humana; aquele que resgata nosso ser do naufrágio da morte. Luz e vida foram sempre associadas à experiência do homem. Uma criança que nasce para a vida se diz que veio à luz, e Jesus associou ambas as coisas dizendo de si: aquele que me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida (Jo 8,12).

Mas ele é também a alegria. Quando nasceu, foi anunciado como grande alegria do mundo (cf. Lc 2;10). Todo o sentido de sua vida parece estar contido nestas palavras pronunciadas na vigília de sua morte: Para que minha alegria esteja em vós; para que a vossa alegria seja plena (cf. Jo 15,11;16,24). A própria palavra “Evangelho” significa boa notícia, isto é, anuncio e alegria e felicidade.  Eu vim para que as ovelhas tenham vida e para que a tenham em abundância (Jo 10,10), e alegria significa vida, a plenitude: Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus  (Mt 5,12). São Paulo exorta os discípulos dizendo:  Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos! (Fl 4,4).

A alegria deve florescer por força, portanto, quando se vive o Evangelho, ainda que fosse “ uma alegria na tribulação”, como a chama São Paulo (cf. II Cor 5,22). A alegria é, aliás, a manifestação da presença do Espírito num cristão:  O fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade (Gl 5,22). O mundo que ainda não crê nos desafia exatamente beste terreno, sobre a capacidade de saber estar na alegria e de fazer triunfar a alegria. É um desafio antigo como a fé em Deus. Isaías, o grande profeta que viveu muitos séculos antes de Cristo, já captava este desafio na boca dos descrentes: Eis o que dizem vossos irmãos que vos odeiam, que vos renegam por causa de meu nome: “Que o Senhor manifeste sua glória para que vejamos vossa alegria!”( Is 66,5).

Por que então nós cristãos não somos alegres? Talvez o anúncio da alegria – o Evangelho – não tenha ainda descido na profundidade de nosso coração. Nós nos assemelhamos às multidões tristes que caminhavam curvadas nas trevas, indo para o exílio.

A missa dominical é o teste de tudo isto. Nela se deveria repetir, em espaço menor e num tempo breve, aquela transformação da qual nos falou Isaías na primeira leitura. Ao vir aqui, nós somos como aqueles israelitas aflitos, cansados e cheios de lágrimas; mas, saindo, depois de ter ouvido a Palavra de Deus e comungado o corpo de Cristo, nós devemos ficar como aqueles que voltam contentes da colheita, trazendo seus feixes (Sl 125[126],6); gente que sentiu “multiplicar-se a alegria no coração” para levá-la ao mundo como testemunho da redenção de Cristo. Recordemos aquele maravilhoso texto da Escritura que diz: a alegria do Senhor será a nossa força (Ne 8,10). Sim, hoje também, no meio do mundo, nossa força de persuasão será a alegria que nos vem do coração de Deus.

 

Fonte: O verbo se faz carne

Raniero Cantalamessa