Quarto Domingo da Quaresma

pe-geraldo1ª Leitura: (I Sm 16,1b. 6-7.10-13a). O episódio narrado nesta leitura aconteceu cerca de 1.000 anos antes do nascimento de Jesus Cristo. O povo de Israel se encontra numa situação difícil. Os filisteus estão pressionando por todos os lados. Como reagir?

A primeira coisa a ser feita, pensa-se, é escolher como chefe um homem valoroso, hábil, capaz de conduzir os soldados à vitória. Mas onde encontrar um rei com estes requisitos?

Certo dia o Senhor revela a Samuel quem foi o escolhido para esta missão: um jovem de Belém, um membro da família de Jessé. É ele que deve ser ungido como rei.

O profeta se põe a caminho desta cidade, chega até a casa de Jessé, entra e conta o que o Senhor lhe revelou. Jessé se entusiasma, está muito feliz porque Deus escolheu um dos seus filhos para ser o rei de Israel. Qual deles? Tem muitos. Após um instante de hesitação, pensa: com certeza o escolhido é Eliab, o primogênito. É alto, forte, bonito… Só pode ser ele! Também Samuel ficou impressionado com seu aspecto e com a imponência da sua estatura. Mas Deus lhe disse: “Não, não é ele”.

Jessé, um tanto desiludido, apresenta o segundo, em seguida o terceiro e todos os outros filhos. São jovens fortes, bonitos, sagazes, inteligentes, e não obstante nenhum deles foi escolhido por Deus. Samuel então pergunta para Jessé se não tem outros filhos, e este responde: “Sim, tenho mais um, mas é pequeno, é ainda quase uma criança, não é possível que, para uma missão tão importante, Deus tenha escolhido justamente ele, sendo que seus irmãos são pessoas dotadas de qualidades tão elevadas”. Mas o profeta responde: “ É justamente ele o escolhido”.

Neste ponto nós também com certeza ficamos surpresos pelo modo singular como Deus age. Por que se comporta assim?

 É fácil verificar que não é a primeira vez que ele age desta maneira. Quando se trata de escolher alguém para cumprir uma missão importante, parece que ele se diverte, agindo contra qualquer lógica, contra todo o senso comum. Por exemplo, quando decide escolher um povo, o que resolve? Olha para os egípcios: homens muito religiosos, construtores de pirâmides, conhecedores dos mistérios da ciência.

Em seguida contempla os babilônicos: um povo rico, poderoso, desenvolvido. Mas não os escolhe. Prefere Israel, porque… é o menor (Dt 7,7-8). E para lutar contra os opressores, a quem ele chama? Gedeão, que se esquiva, dizendo: “Ah! Meu Senhor, como pode caber a mim a missão de salvar Israel? Eis que a minha família é a mais pobre de toda a tribo e eu sou o menor da minha família”( Jz 6,15).

Jesus terá o mesmo comportamento. Escolherá os pequenos, os pecadores, os pobres, os pastores, as pessoas desprezadas, que serão os primeiros convidados ao banquete do Reino.

Por que Deus se comporta desta maneira? A resposta se encontra no versículo 7 da leitura de hoje: Deus não vê as coisas e as pessoas com olhos humanos; o homem olha as aparências, o Senhor olha o coração (v.7).

O cristão também sente-se tentado muitas vezes a julgar conforme as aparências. Quase sem querer enfrentar os problemas e julga tudo o que acontece “com os olhos dos homens”. Quem escuta a voz do Senhor e abraça a fé deve aprender a encarar o mundo e os homens com os olhos de Deus.

 

2ª Leitura: (Ef 5,8-14). Na Bíblia a luta entre o bem e o mal é apresentada com muita freqüência com a imagem do contraste entre a luz e as trevas.

Paulo escreve aos primeiros cristãos que com o batismo eles passaram do mundo das trevas para o reino da luz. Por isso devem executar as obras da luz. Falar de luz e trevas é o mesmo que falar de morte e vida, vida antiga e vida nova, vida cristã e vida pagã.

As obras da luz são:  toda espécie de bondade, de justiça e verdade. Quanto às obras das trevas, Paulo diz simplesmente que elas são tão vergonhosas, que os que praticam procuram espontaneamente a escuridão para poder se esconder. Temem que a luz os deixe expostos.

Paulo sugere também um método muito útil para eliminar as obras do mal: a denúncia aberta e decidida (v.13). Estas ações vergonhosas devem ser condenadas com clareza, não se deve tentar justificá-las, desculpá-las ou torná-las de alguma forma aceitáveis. A denúncia é como feixe de luz projetado sobre elas, deixa-as a descoberto, priva-as da sua proteção mais eficaz. Quando não há escuridão, as ações torpes ficam privadas de seu elemento vital. É como se faltasse a água para o peixe… não pode continuar vivendo.

Esta afirmação de Paulo é um alerta para que cada cristão cumpra seu dever de denunciar com coragem e de identificar pelo nome o mal e a injustiça.

 

Evangelho (Jo 9,41). Desde os tempos mais antigos, a narrativa sobre o cego de nascença é proposta durante a Quaresma. Todos os cristãos, na história do cego de nascença, podem identificar a própria história: antes do encontro com Cristo era  cego e o Mestre lhe restituiu a vista.

O evangelista João, como costuma fazer, toma como ponto de partida um episódio da vida de Jesus, para desenvolver um tema básico da mensagem cristã. No próximo domingo será tratado o tema da morte e vida; neste domingo é apresentado o da “luz” e das “trevas”.

Há muitas coisas que nós vemos e outras que nos escapam. Os homens dos nossos dias julgam que seja verdade, que somente existia o que poder ser controlado pelos olhos, constando pelos sentidos e verificado por instrumentos científicos. Estão convencidos de conhecer tudo, estão certos de que nada escapa ao seu controle. Mas o que vêem estes indivíduos?  Nada mais do que as realidades materiais. Mas em verdade existem somente essas? E se os que não conseguem ver nada além da matéria, fossem cegos, e precisassem ser iluminados por Cristo?

O Evangelho deste dia nos ensina que Jesus foi enviado para trazer-nos uma água que cura esta cegueira. Para entender este trecho, temos que dividi-lo em sete partes, como se fossem sete cenas de um drama.

vv.1-5: a primeira cena se abre com um diálogo entre Jesus e os discípulos. Tem como objetivo introduzir-nos na leitura do significado simbólico da cura operada por Jesus: ele é aquele que  arranca os homens das trevas  nas quais estão submersos (vv. 4-5).

Antes de narrar o episódio, João põe nos lábios dos discípulos uma pergunta que é talvez também a nossa: “Por que este homem nasceu cego?” Alguém deve ter pecado: ou ele ou os pais dele (v.2). Jesus responde que não se deve falar de castigo do Senhor (v.3).  Esta é uma forma pagã de imaginar Deus. Deus não castiga ninguém, somente ama, e ama, sobretudo aqueles que erram. Diante do mal não faz sentido investigar de quem é a culpa; a única coisa a ser feita é esforçar-se para eliminá-la, como Jesus fez.

 

vv.6-7: nesta segunda parte narra-se, em poucas palavras, a cura feita por Jesus. O método empregado por ele é para nós bastante esquisito, mas naquele tempo pensava-se que na saliva estivesse concentrado o hálito, o espírito, a força de uma pessoa. No Evangelho encontramos que Jesus outras vezes faz este gesto         ( Mc 7,33;8,23). O cego não recupera imediatamente a vista, deve antes ir lavar-se na água de Siloé e o evangelista observa que esta palavra quer dizer “enviado”. O simbolismo do episódio é evidente: o enviado do Pai é Jesus, é a água ( aquela prometida à samaritana) que cura a cegueira do homem.

 

vv.12: começam os interrogatórios ao cego. Observe que o homem que foi iluminado por Jesus já não é mais reconhecido. Os vizinhos, que viveram com ele por muitos anos, se perguntam: “mas é ele ou não é ele?”. Se ainda não ouvimos nossa esposa, os colegas de trabalho, os vizinhos falando: “Mas ele não é mais aquele…!”, é um mal sinal!

 

vv. 13-17: é o segundo interrogatório feito ao cego pelas autoridades. Elas não estão preocupadas em verificar o que aconteceu. Já decidiram condenar Jesus, porque ele não corresponde ao figurino de um homem religioso que têm em mente. Não acontece também conosco julgarmos as pessoas com  esse mesmo critério?

 

vv.18-23: o terceiro interrogatório é feito aos pais do cego pelas autoridades. Elas detêm o poder e não podem tolerar que alguém questione suas convicções e seu prestígio. Quem tem a coragem de contrariá-los vai sendo isolado ou eliminado. Até os próprios pais têm medo de tomar posição em favor do filho. Nunca nos aconteceu ter medo de nos posicionarmos do lado da verdade?

 

vv.23-34: o último interrogatório ao cego é feito pelas autoridades religiosas. Nas suas respostas, nas suas atitudes, podem-se descobrir as características que distinguem a pessoa “iluminada por Cristo”.

1. a pessoa “iluminada”, antes de tudo é livre: não vende sua convicções a ninguém, diz o que pensa.

2.Além disso,  é corajosa não se deixa intimidar por aqueles que abusando do seu poder, insultam, ameaçam, recorrem à violência.

3. É sincera: não renuncia à verdade, nem quando esta incomoda ou desagrada a quem está por cima e que está acostumada a receber somente aprovação.

4.Mantém-se numa permanente  posição de procurar: as autoridades pelo contrário, estão certas de que elas a situação está bem clara. Julgam conhecer tudo. “ Nós sabemos que este homem não procede de Deus” (v.29). Aquele que fora cego reconhece os próprios limites: “ De onde vem este homem, eu não sei” (v.12); “se é um pecador eu não sei” (v.25). “Quem  é?”, reconhecendo, uma vez mais a sua ignorância (v.36).

5. Por fim, aceita até suportar a violência: prefere antes ser expulso da instituição do que renunciar à luz recebida, do que contrariar a consciência (v.34).

 

vv.35-41: Jesus apareceu no começo da narrativa, reaparece somente agora, no fim. Não interveio antes, deixou que o cego se virasse sozinho em meio às dificuldades e conflitos. A pessoa “iluminada” não precisa da presença física do Mestre. A força que lhe advém da “luz” que recebeu é suficiente para mantê-la firme na fé e para orientá-la nas escolhas certas e coerentes.

Por fim Jesus intervém  e dita a sua sentença, a única que vale quando se trata de decidir sobre o êxito ou o fracasso da vida do homem. Afirma: no começo havia um homem cego e muitos que enxergavam. Agora a situação se inverteu: os que estavam certos de enxergar, na verdade eram cegos incuráveis; aquele, ao contrário, que estava consciente da própria cegueira, agora enxerga.

Observe–se como é chamado Jesus durante a narrativa: para as autoridades, para os “que enxergavam”, ele é  “o tal” , “ aquele homem”, “este”. Os chefes não se dignam sequer de chamá-lo pelo nome. Têm olhos, mas não têm capacidade ou não querem ver quem ele é.

O cego, pelo contrário, percorre o caminho da fé que corresponde ao de cada cristão: no começo Jesus é para ele um simples “homem” (v.11); depois virá “um profeta” (v.17); em seguida é “um homem de Deus” (v.32-33); por fim, é o “Senhor” (v.38).

 

 

Fonte: Celebrando a Palavra

Fernando Armellini

Editora: Ave-Maria